miscelânia

Wednesday, June 24, 2009

Jornalista ou cozinheiro?

Semana passada o então presidente do Supremo Tribunal Federal, o excelentíssimo ministro Gilmar Mendes derrubou a obrigatoriedade do diploma de jornalista.
Essa questão vinha se arrastando há tempos, quando já se discutia se é obrigatório o jornalista ter diploma ou não. Mas com a derrubada da obrigação de se ter diploma a profissão que já sofre com a desvalorização agora, irá sofrer ainda mais.
Voltando ao senhor ministro, ele comparou os jornalistas com cozinheiros. Nada contra essa profissão, mas o distinto Gilmar Mendes, com certeza, não sabe que qualquer pessoa com vontade pode ser um cozinheiro. Para ser um bom cozinheiro, no entanto, é preciso qualificação, havendo a necessidade de frequentar um bom curso de gastronomia. Muitas mulheres desde criança aprendem a cozinhar, mas isso não as dá o direito de ser uma chef de cozinha em qualquer restaurante, ainda mais no Brasil onde as profissões recebem o devido valor.
Diferentemente da profissão de jornalista, que ninguém aprende em casa, ou com qualquer pessoa, precisa de o mínimo de qualificação superior para que o sujeito aprenda. E como o ministro colocou – e ameaçou – outras profissões podem sofrer o mesmo que o jornalismo está sofrendo.
Convenhamos que essa do Gilmar Mendes não passa de uma represália a nós jornalistas, desde que a imprensa caiu em cima dele depois da sua decisão de soltar o banqueiro Daniel Dantas, preso na operação Satiagraha em 9 de julho de 2008. Isso menos de 24 horas após a prisão. Como nós jornalistas, os delegados da Polícia Federal também ficaram indignados com a decisão do ministro na ocasião.
Na decisão, Mendes considera "desnecessária" a prisão preventiva dos suspeitos, pois não há ameaça às provas colhidas durante a operação da Polícia Federal. Na época o Ministério Público pediu ao Supremo que não concedesse a liberdade de Daniel Dantas, mas o pedido não foi aceito.
Um cidadão comum com certeza ficaria preso até no mínimo seu julgamento, mas não sabemos o porquê do ministro ter concedido uma exceção a Dantas. Mas isso não é de se causar espanto, já que Mendes gosta de conceder habeas corpus. Também foi dele a decisão de conceder esse dispositivo jurídico a todos os suspeitos de emitir habilitação de motorista falsa no município de Ferraz de Vasconcelos, na Grande São Paulo.
Termino esse texto com a frase do jurista brasileiro e professor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), Dalmo de Abreu Dallari, quando soube que Gilmar Mendes teria sido indicado para o cargo de ministro do STF: “Se essa indicaçao (de Gilmar Mendes) vier a ser aprovada pelo Senado, não há exagero em afirmar que estarão correndo sério risco a proteção dos direitos no Brasil, o combate à corrupção e a própria normalidade constitucional. (...) o nome indicado está longe de preencher os requisitos necessários para que alguém seja membro da mais alta corte do país”.